JOÃO DOURADO: Dividida, Mas Viva: A Igreja Presbiteriana de Gameleira Chega aos 100 Anos
- 29/04/2025
- 5 Comentário(s)
GAMELEIRA DOS CRENTES: A JORNADA CENTENÁRIA MANCHADA PELA DOR DA DIVISÃO
No último final de semana, a Igreja Presbiteriana de Gameleira celebrou um marco histórico: 100 anos de existência. Um século de fé, de lutas, de vitórias e também de feridas que marcaram a caminhada. Uma história que se mistura com a origem da própria comunidade de Gameleira dos Crentes.
Segundo relatos antigos, o nome da comunidade se deu de forma simples, mas cheia de significado. Quando os primeiros evangélicos presbiterianos chegaram à região, fizeram uma parada para descanso sob uma grande árvore conhecida como Gameleira, que ficava no quintal da casa do senhor Moisezinho — hoje, a residência de Dona (Ivone). Ali, debaixo daquela árvore, ocorreu o primeiro culto evangélico, dando início à construção de uma história que atravessaria gerações. Assim, o local passou a ser chamado de "Gameleira dos Crentes", unindo de forma eterna a fé e a terra.
Muitas perguntas ainda pairam sobre essa origem: De onde vieram esses pioneiros? Para onde iriam? Por que decidiram parar ali? Quem habitava a região antes da chegada deles? Como o local era chamado antes? Algumas dessas respostas se perderam com o tempo, como acontece na vida. No entanto, uma coisa é certa: os primeiros presbiterianos deixaram um legado inegável para a formação da Gameleira que conhecemos hoje.
A chegada do avivamento: uma revolução espiritual
Durante décadas, a Igreja Presbiteriana de Gameleira manteve um perfil tradicional, típico da Igreja Presbiteriana do Brasil: cultos silenciosos, sem manifestações públicas de emoção, orações feitas em silêncio, e praticamente nenhuma manifestação como "Glória a Deus" ou "Aleluia".
Tudo começou a mudar na década de 1990, quando um forte movimento de avivamento varreu a região de Irecê, chegando com força em Gameleira. O chamado “Movimento do Avivamento” trouxe uma nova atmosfera para os cultos: orações fervorosas, vigílias que varavam as madrugadas, alvoradas ao amanhecer, cultos evangelísticos em praças e lares, e muitos relatos de milagres e manifestações sobrenaturais.
Gameleira tornou-se um verdadeiro solo de milagres e conversões. Uma juventude vibrante, vinda especialmente do bairro do Carreiro — até então considerado o bairro mais discriminado e marginalizado da comunidade —, começou a encher os bancos da Igreja Presbiteriana. Eram jovens negros, humildes, mas cheios de sede de Deus, de oração e jejum.
Nesse contexto nasceu o grupo Cristo Vive, formado majoritariamente por esses jovens do Carreiro. Eles traziam talento musical, paixão pela evangelização, ousadia na pregação e profundo compromisso com a fé. A presença desses jovens renovou o ambiente da igreja, transformando cultos frios em celebrações vivas e cheias do Espírito Santo.
O incômodo e a ferida da divisão
No entanto, a transformação não agradou a todos. Muitos dos que se intitulavam "pioneiros" — antigos membros que se viam como donos da igreja — começaram a se incomodar. Não apenas com o barulho dos cultos e a alegria dos jovens, mas também, lamentavelmente, com o fato de serem "negrinhos do Carreiro" que agora lideravam o louvor, a oração e a evangelização.
O incômodo foi crescendo, misturando questões litúrgicas, sociais e raciais, até culminar em um dos capítulos mais tristes da história da Igreja Presbiteriana de Gameleira: a divisão.
No ano de 1996, numa manhã de domingo (cuja data exata muitos não conseguem esquecer), um grupo de membros — insatisfeitos com as mudanças e desejosos de manter a antiga forma de culto — decidiu se separar. Começaram a se reunir em outro local, na Escola Professora Ana Guanaes Dourado, fundando assim uma nova igreja presbiteriana em Gameleira.
A separação foi um escândalo para a comunidade. Era impossível esconder que, além das divergências litúrgicas, havia o peso do preconceito social e racial contra os jovens do Carreiro e da Boa Esperança. A dor da ruptura marcou profundamente quem ficou e quem saiu.
O grupo que permaneceu na igreja" mãe" enfrentou sérias dificuldades financeiras e estruturais. O pastor da época, diante da situação crítica, aceitou reduzir seu próprio salário para ajudar a manter as portas abertas da igreja. Foram anos de sacrifício, mas também de amadurecimento espiritual e humano para aqueles que decidiram seguir.
A reconstrução e o legado de um século
Muitos que viveram aquele período difícil se afastaram da igreja ao longo dos anos, por vários motivos. Outros permaneceram firmes. Novas gerações vieram, novas famílias se formaram e a igreja seguiu em frente, costurando lentamente as feridas abertas pela divisão.
Hoje, 100 anos depois, é possível olhar para trás com gratidão. Durante as celebrações do centenário, foi possível ver um povo unido, diverso, acolhedor. Aqueles bairros antes discriminados — Carreiro e Boa Esperança — agora representam a espinha dorsal da igreja. E boa parte dos membros de hoje, direta ou indiretamente, carrega raízes desses jovens que um dia foram vistos com preconceito.
A Igreja Presbiteriana de Gameleira segue como testemunho vivo de que a fé é mais forte que a divisão, que o amor supera o preconceito, e que Deus escreve sua história mesmo através dos nossos erros e tropeços.
Que esta história, cheia de lutas, de fé e de superações, sirva de exemplo para as próximas gerações. E que no próximo centenário — ou muito antes — vejamos as duas igrejas, reunidas novamente como uma só família, glorificando o mesmo Deus que, há 100 anos, plantou a semente da fé sob a sombra de uma simples Gameleira.
Viva os 100 anos da Igreja Presbiteriana de Gameleira! Viva a fé que transforma vidas!







Jeremias Batista Ferreira
30/04/2025
De fato uma difícil e realidade,mais em toda estória a Igreja sempre passou por lutas,batalhas terríveis mais em Cristão Jesus foi vencedora,glofico a Deus por viver momentos de grandes manifestações do poder do Eterno Salvador!